A carência de gordos magnéticos (de acordo com as pesquisas)

Todos os dias eu escuto/leio/vejo algum absurdo sobre padrões de beleza.

Já ouvi: no mundo dos solteiros, gordo não tem vez.

Já ouvi: não, nunca peguei gordo.

Já ouvi: eu gosto dele, mas ele é feio.

Todos os dias eu escuto/leio/vejo algum absurdo sobre padrões de comportamento:

Já ouvi: quem quer relacionamentos duradouros não deve transar na primeira noite.

Já ouvi: se o cara não paga a conta eu nem atendo o telefone.

Já ouvi: a primeira coisa que eu faço é ver se ela está com a manicure em dia.

Hoje eu tive a infelicidade o prazer de ler, basicamente, tudo isso na mesma “reportagem“.

Depois que cheguei do almoço notei que o mesmo texto (com um título inocente) tinha sido compartilhado por um monte de gente (de conteúdo, diga-se de passagem) da minha TL.

A chamada era “Mulheres aprendem a ‘desmunhecar’ em curso para ‘atrair partidão'”.

Pensei: ah, engraçado, deve ser alguma brincadeira, a mulherada tá carente, o dia dos namorados tá chegando, quem nunca quis ir naquele curso que a Carrie deu sobre a arte da conquista?

Então, depois daquele café fresquinho pós almoço, resolvi ler pra dar uma relaxada antes de voltar a trabalhar…

Me dei mal.

O sentimento foi de “nojinho” (pra não dizer ira).

As dicas bobinhas e engraçadinhas eram, nada mais nada menos, que uma espécie de bíblia da involução.

Uma “reportagem” sobre um “treinamento” intensivo oferecido por uma “agência” que promete deixar as mulheres “magnéticas” para conquistarem um partidão.

As lições?

– Não somos culpadas pelo movimento feminista (sabe aquele que culminou no direito ao voto? Que briga por direitos equânimes? Que luta por uma vivência humana liberta de padrões opressores baseados em gênero?) e devemos resgatar a feminilidade e a tolerância se quisermos relacionamentos duradouros;

– As mulheres não devem FALAR com o garçom durante um jantar (isso demonstra muita independência, CUIDADO!);

– Não devemos falar sobre trabalho, esse departamento é dos homens;

– Devemos ser pontuais (único conselho razoável, ainda assim acho “charmoso” atrasar, rs);

– Para atrair devemos usar salto alto e na falta dele ANDAR NA PONTA DOS PÉS;

– 50% das pessoas não querem parceiros acima do peso.

Depois de sentir aquele gosto de guarda-chuva pós ressaca de tequilarumcervejavodkaezulu, senti que engoli uns três guarda-chuvas de uma só vez quando li:

A própria Eliete costuma rejeitar gordos em sua agência. “Sou carinhosa e assertiva, digo que se ela emagrecer aumentará seu leque de oportunidades”, explica. Mas há gordos magnéticos, não?, a reportagem pergunta. “Não é o que dizem as pesquisas.”

EPA!!!!!!!!!!!!

lady kate

QUE PESQUISAS???

“De acordo com pesquisas” o CARALMBA!.

Desde quando o uso do termo é fonte científica?

“De acordo com pesquisas”, “eu li num email”, “tá na Veja”.

Eu li num email que se eu repassasse o email pra 15 amigos eu ia ter meu pedido atendido e continuo não estando milionária.

Pois é.

Eu recebi um email que me mandava parar de tomar activia porque o que fazia o meu intestino funcionar era o COCÔ que fazia parte da composição do iogurte.

E quer saber?

Pra mim, o valor das pesquisas que embasam esse treinamento é tão incrível quanto e tem a mesma base desse email: MERDA.

À MERDA essa tirania disfarçada de treinamento.

Como é que pode existir gente (gente rica) que investe R$ 1.000,00 em um curso que ensina, BASICAMENTE, o que o mundo já impõe?

Como é que pode existir gente que não percebe que somos condicionados a ter o mesmo corte de cabelo, a vestir as mesmas roupas, a ouvir as mesmas músicas, a ler os mesmos “livros”, a assistir aos mesmos filmes?

Como é que tem gente disposta a PAGAR pra ouvir que deve cortar a unha do pé?

Ou pior, como é que tem gente disposta a atrair um parceiro que admira quem anda com pé de Barbie na piscina?

Gosta de padrão? Vai ler as regras da ABNT, meu filho!

Pelo amor dos Deuses.

Pelo amor à vida.

Pelo amor a si.

Mulher! Homem! Mundo! Quando é que vamos entender que os padrões de beleza são RELATIVOS?

Que aquilo que é belo pra mim, não necessariamente te agrada?

Que atração vai muito além da carcaça?

Que não tem a menor graça fazer parte de um conjunto de bonecas?

Por favor, mundo! Como é que você fica abismado com a mastectomia da Angelina e acha NORMAL um batalhão de peitões, bundões e cinturinhas – artificiais – desfilando por aí?

Como?

Como é que pode um dos maiores vetores de comunicação de São Paulo publicar algo tão… vazio?

O que me consola é que não sou a única a ter náuseas ao saber que pra algumas pessoas seguir padrões é a (única) saída.

Não, não tenho absolutamente nada contra quem se cuida.

Admiro, sim, o belo e reafirmo que esse blog trata, entre milhões de outras coisas, dessa busca pelo belo.

Eu eu me pergunto… a que custo? Porque? Para que? Para quem?

Se estar magro é a ferramenta INDISPENSÁVEL para atrair um parceiro e significa não fazer parte das estatísticas dos “não magnéticos”, eu quero mais é usar 44 pro resto da vida.

Como diria meu genial amigo, Ivson: relacionamento é como a pesca, dependendo da isca você só vai atrair bagre!

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4 pensamentos sobre “A carência de gordos magnéticos (de acordo com as pesquisas)

  1. Renato disse:

    Somos todos reféns de uma realidade onde homens e mulheres são educados para serem nada além de replicadores destes padrões, destas idéias.

    Fico imaginando que vida de merda têm um casal formado à partir dos predicados ensinados neste curso…

  2. Flavia disse:

    Mari, adorei o seu texto! Muito obrigada por passar lá no Ativismo e deixar o seu link, é isso aí, temos que mostrar a essa mídia idiota o que nós realmente queremos. Até agora ninguém compartilhou o texto com comentários positivos no meu face, mas né, eu não duvido que isso possa ocorrer ainda. Mas estamos aqui pra resistir, pra oferecer alternativas, pra pensar! Mais uma vez, obrigada por passar lá. Beijas e tamo junta!

  3. Vi Gushiken disse:

    “…dependendo da isca você só vai atrair bagre” é uma frase que eu consideraria seriamente tatuar na testa dessas pessoas loucas =)

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