Uma carta para Nadine – ou como eu queria que você entendesse que é linda.

Eu estava conversando com uma amiga ontem, e fiquei perplexa com a dificuldade que tive para fazer com que ela entendesse que era bonita. E eu falhei miseravelmente. Veja bem, eu não estou falando de bonitinha: a Naná, além de ser uma das amigas mais queridas do mundo, companheirona mesmo, é linda. Tipo TOP 5 meninas mais bonitas da nossa sala da faculdade, e olha que eu estudei em um lugar onde todo mundo tinha tempo e dinheiro para investir em vaidade.

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Tenho claro para mim que estou cercada dessas mulheres deslumbrantes, todas tão belas e cheias de brilho que dá gosto viver. Enxergar o belo no alheio, porém, é muito mais fácil. Quando se trata de nós mesmos, que sabemos o quanto consumimos “comida errada”, onde está a espinha inflamada embaixo do corretivo, da celulite perfeitamente oculta na calça larga, aceitar a beleza, a própria beleza, é quase impossível. Somos fiscais da beleza do outro, mas carrascos da nossa própria.

Entendo, porém, que para Nadine (assim como é para mim, diariamente, e para todas as mulheres que eu conheço) se olhar no espelho é mais que um esforço de visão, é um exercício de desapego: Para amar a si mesma, do jeito que somos, não basta procurar a parte mais bonita do nosso corpo. É preciso deixar de lado os modelos que são impostos a nós o tempo todo. Lembrar que o que é considerado perfeição é uma imagem absolutamente inatingível, fruto de uma combinação entre tratamento de imagem e inanição de mulheres.  É um exercício longo demais para um simples reflexo no espelho quando se está correndo, limpando o batom borrado e arrumando a roupa, tudo ao mesmo tempo.

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Mas é preciso. É preciso lembrar que a modelo na revista não é de verdade. A moça no instagram vive de ser bonita, o que também faz com que ela não seja verdadeira. A blogueira gata é rica o suficiente para interferir cirurgicamente no próprio corpo até ficar no padrão-exato-do-que-é-esperado.  A gata de lingerie no desfile passa fome por semanas para que seja possível vermos os contornos de sua caixa torácica. O modelo que tanto queremos alcançar, bem, ele não existe. É uma ilusão. Queria muito fazer com que a Nadine entendesse isso. Com que você – você que está lendo – entendesse que aquilo não existe.

E que mesmo que exista (NÃO EXISTE!) isso não faz de você melhor ou pior ou mais ou menos bonita.  Quando alguém te acha bonita não é porque você tem o corpo da atriz X: é porque você tem o SEU corpo e o SEU corpo é considerado bonito.  Quando alguém fala que o seu sorriso é bonito é porque O SEU SORRISO É BONITO, não porque ele parece com o de alguém que sorri bonito também.  Você é bonita porque é você. Sua beleza não determina se você merece mais ou menos amor.

Eu queria lembrar que as pessoas que te amam não a amam porque você é bonita. Ou porque é linda. Ou porque tem um par de longas pernas, perfeitos seios empinados ou sei lá o que está na moda hoje em dia. Você é amada porque tem alguma mania ridícula. Porque é carinhosa. Porque é gentil e amorosa. Porque faz bolos deliciosos. Porque é bem humorada. Porque é mal humorada. Porque é irônica. Porque não é. Você é amada porque é você. Sua capacidade de seguir um padrão físico não é determinante para que você seja quem você é.

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Por mais que sua forma corporal influencie no seu comportamento, por mais que isso possa atrair mais amizades (nunca verdadeiras!), te colocar de graça na balada, te dar seguidores ou colocar o gato mais maravilhoso do mundo nos seus braços… Não é por isso que você é bela. Eu às vezes também me esqueço de uma das únicas verdades universais: que beleza não é medida só pela simetria entre os olhos, boca, nariz e na correlação altura vezes altura dividida pelo peso.

Beleza é muito mais que pernas da modelo y e boca da atriz x.  A Nadine, por exemplo, move os braços de uma maneira muito graciosa, parece que está sempre inclinando as mãos num passo de dança. Ela também tem esses olhos enormes e expressivos, e é capaz de dizer tanto apenas com um olhar. Tão linda. Enquanto reduzirmos beleza aos padrões específicos do que vemos nas revistas, nos comerciais, enquanto reduzirmos a beleza às fórmulas e números meticulosos e calculados… não vamos ver beleza em lugar nenhum.

Beleza não cabe em números, quilos ou especificidades, e tentar conter a beleza dessa forma só vai fazer com que a real percepção da beleza escape aos nossos olhos. E quando eu olho, eu vejo tanta beleza em você.

Eu queria dizer isso. Para você e para a Nadine.

 

 

ps: A minha amiga Alyce está com um projeto lindo no instagram que fala muito disso. Depois é só procurar em #lindadodia.

ps2: Gostei demais desse post do Just Lia em que a Lia Camargo fala sobre a pressão para ser “magra”, “linda”. Excelente!

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2 pensamentos sobre “Uma carta para Nadine – ou como eu queria que você entendesse que é linda.

  1. Queria tanto que as pessoas entendessem isso…

    Cada pessoa é bonita do seu jeito particular. E é isso que as tornam únicas. E isso que faz com que sejam amadas.

    Eu estou magra e feliz. Mas já fui gorda e, nem por isso, meu namorado me deixou, meus amigos se afastaram ou meus pais deixaram de me amar.

    Porque gorda ou magra, eu ainda sou a mesma Mariana.

  2. […] apelidada de Crackuda do açúcar por uma amiga. Achei condizente, já que existe um estudo que diz que açúcar vicia tanto quanto drogas, o que […]

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