Arquivo mensal: novembro 2013

Eu quero que doa.

Estava conversando com uma amiga querida sobre amor, e escutei minha boca falar (porque esse tipo de coisa você se escuta dizer, mas nunca se permite pensar) que eu queria que doesse.

Eu disse, com todas as palavras, exatamente isso “Eu quero que doa”. Também me lembro de ter falado coisas como “Quero sentir que vou morrer de amor” e “Quero que seja tão intenso que eu sofra”. Os americanos tem uma expressão muito boa para apaixonado, que é “head over heels”.  E quando eu falo sobre me apaixonar é exatamente essa sensação que eu gosto de ter: como se eu estivesse equilibrando a minha cabeça em cima de um par de saltos agulha tamanho 15, sem meia pata, enquanto eu desço as ladeiras dos Jardins para o trabalho.

Isso não é amor. Isso é obsessão. Quem vai querer que o sentimento mais sublime gere… desespero? Não, não, não, eu estou errada. E, pior, eu estava falando sobre amor. Não era sobre séries de flexões, sobre corrida embaixo do sol, sobre um minuto interminável de burpees. Eu estava falando sobre o amor, sobre coisa boa. Eu estava desejando fortemente que algo bom me fizesse penar. Sofrer. Que doesse.

Abro o meu texto falando isso porque eu me sinto extremamente decepcionada quando faço um exercício e acho fácil. Quando eu emagreço sem me privar, sem passar fome. Sinto, nesses momentos, que não mereço o resultado se não tiver uma boa dose de lágrimas, suor e possivelmente sangue envolvidos (lágrimas, suor e sangue são válidos para o amor também, se vocês não perceberam pelo primeiro parágrafo). E eu estou errada. Oh, tão errada.

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(Entendedores entenderão)

Porque, sério, qual o sentido de exigir sofrimento? Será que a vida já não está difícil demais sem uma dose extra de culpa em cima do meu ocasional sanduíche de pata negra com gorgonzola? Que tipo de pessoa exige sofrimento para a vida valer à pena?

Eu estou falando sobre isso porque vi essa imagem

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E achei uma bobagem.

Cara, quem disse essa bobajaiada aí de que você precisa doer para ter resultado? Essa expressão deve ter vindo da mesma mente mestra que disse que você merece ser “gorda” ou “horrorosa” porque, bem, porque você falhou a dieta. Porque comer carboidrato é pecado, porque só merece ser “bonita” quem sofre para isso. Certeza que veio da mesma guru fitness que posta foto de “barriga negativa” com a legenda “Boa noite para você que comeu pão de queijo hoje”.

Vou te contar uma coisa: ninguém merece sofrer. Algumas vezes nós temos que colher os resultados das nossas escolhas ruins. Corações machucados, alguns quilinhos a mais, madrugadas em claro antes de uma prova. Isso não é merecer sofrer. Isso é só o bom e velho karma. Lidar com uma consequência não tem que ter culpa, e também não precisa ser um sofrimento, mas sim um aprendizado. Não faz sentido derramar uma cobertura de sofrimento no sorvete da vida porque, bem, você vai ter de tomá-lo de qualquer forma.

Eu não acho certo compartilhar a culpa que sinto. A minha culpa é um problema, não é um Projeto. Um projeto é um plano para realizar alguma coisa, e até a última vez que olhei, sentir-se culpada não é construir alguma coisa. Pelo contrário, incluir culpa no dia a dia é retirar o prazer de viver com a dor e a delícia de falhar e vencer, de ser um humano de verdade. Se culpar pelas falhas não vai fazer de você alguém melhor. Só mais frustrado. E, olha, frustração não constrói nada também.

Do mesmo jeito que achar que o tamanho do sofrimento é proporcional com o amor sentido é uma presunção absolutamente patética, é óbvio que exigir privação e dor para “merecer” uma vida saudável também não leva à nada. No amor e na dieta, sofrimento é opcional.

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