Arquivo mensal: julho 2014

Sobre ser um vira lata preto

Um dia a Julie me mandou uma mensagem dizendo que tinha pegado um cachorro na rua. Ela não escolheu pegar o Corvão (eu te juro que esse é o nome temporário que ela deu pro cachorro. É minha amiga, vocês querem o quê?), ela simplesmente abraçou o cachorro e correu com ele pro veterinário. Algumas coisas não devem ser pensadas duas vezes. Principalmente quando a vida de alguém está em perigo.

Ela não adotou o Corvão. Ela resgatou o danado num dia de frio, chuva, em que ele estava encolhido num canto tremendo de dor e de fome. A intenção dela era medicá-lo, apresentar o bichinho para os amigos, e esperar que alguém se apaixonasse por ele. Porque, claro, essa é a única razão para você ter um cachorro: porque você se apaixonou. Não é porque Pugs e Buldogues Franceses estão na moda, ou porque um Golden Retriever um dia apareceu no filme Marley e Eu, apesar do que as pessoas pareçam pensar.

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Mas o tempo foi passando e o Corvão ainda está sob guarda da Julie. Ele acabou de ser castrado, e ainda assim não conseguiu uma casa. Rola campanha, compartilhamento dos amigos no Facebook e tudo. Ninguém se apaixona pelo Corvão. Não é fácil amar um vira lata preto orelhudo.

E eu sei que se ele não encontra uma casa é porque o Corvão é um vira-lata preto. E sei porque sou um vira lata preto também. Quem é vira lata preto sabe. Sabe que é vira lata preto e que o mundo é dos labradores amarelos.  Que a gente anda encostado nas paredes, se escondendo do mundo, porque é assim que as coisas são: e que o lugar dos vira latas pretos é menor que o dos Golden Retrivier Dourados. Eu entendo o Corvão.

Corvão 2

Se eu pudesse escrever algo que o Corvão pudesse entender, eu pediria para ele esperar, e não perder a esperança. Um dia ele vai achar alguém que possa amar suas orelhas pontudas, seu olhar doce, amar os poucos latidos que saem dele, assim como eu encontrei alguém que vê qualidade em alguns dos meus defeitos.

Se eu pudesse prometer algo para o Corvs, seria que quem ama um cachorro preto, ama de verdade. Você pode até se atrair pela bela pelagem de um labrador amarelo, mas só quem se enxerga de volta no pêlo preto de um vira lata sabe o que é amor de verdade.

E quem sabe, Corvão, exista um lugar onde nós, vira latas pretos, tenhamos todos alguém para amar?

 

Corvão

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17, 18, 19…20!

Um dia eu cheguei à academia e tinha um instrutor novo. Um cearense alto de olhos claros e um sorrisão enorme no rosto, agasalhado do frio de São Paulo até às orelhas em um dia que eu estava de legging e camiseta, distribuindo bom humor 6 e 10 da manhã. O instrutor novo parecia bonzinho, mas mudou radicalmente meu treino, para algo bem mais puxado. E agora a sequência de exercícios deixou de ser “3 séries de 15 repetições”, para se tornar “4 séries de 20 repetições intercaladas com outro exercício de 4 séries de 20 repetições que deverão ser feitas no intervalo entre a primeira série”.

E nooooooossa, é difícil.

E é difícil não porque dói, e olha que dói sim, mas porque eu não tenho o menor controle mental para as últimas três repetições de cada série.  Eu faria eternamente as primeiras oito repetições de cada exercício, se pudesse pular as três ultimas. É preciso algo maior do que força para, com o braço tremendo e uma gota de suor escorrendo da testa para a borda do óculos, você consiga fazer as três últimas repetições de uma série de exercícios.

Sei que o braço aguenta, que a dor vai passar e que o desconforto é passageiro: é que as três últimas repetições não esgotam o músculo, mas testam o meu coração. Correr os últimos 100 metros depois de ter corrido 9,9 km é a parte mais difícil. Não por conta da distância, mas porque a minha cabeça desiste sempre muito antes do meu corpo. E ela nunca para de desistir. E desistir. E desistir. E de novo ainda desistir.

 

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Faço 1, 2, 3, 4, 5, e penso “Nossa, poderia fazer isso sempre!”. Faço 6,7, 8 e digo para mim mesma “Estou mandando muito bem!”. Faço 9, 10, 11, 12, 13 e me convenço que sou mais forte que eu imaginava. Faço a repetição 15, 16 e 17 pensando “Mais um, só mais um”. Mas quando faço a 18, 19 e a 20, e tudo que consigo pensar é que exercício não leva a nada. Que sou enorme, que nunca vou conseguir alcançar as minhas metas. Que nem 20 repetições de um exercício eu consigo fazer. Que repetir a mesma coisa não vai adiantar nada, vou sempre ser a mesma horrorosa (mesmo quando o meu corpo não deveria ter nada a ver com a minha auto imagem)

Eventualmente o meu lado Ruth ganha, e com braços ou pernas tremendo e com o rosto vermelho, eu posso correr para o outro aparelho e voltar a me divertir. Pelo menos até a próxima 17ª repetição.

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Crackuda do Açúcar

Oi. Meu nome é Mariana. Eu sou viciada em açúcar.

Você não está entendendo meu problema com açúcar, não subestime essa viciada. Passo dias sem ingerir comidas salgadas. Vivendo a base de suco, cereal, iogurte e biscoito de polvilho. Sim, biscoito de polvilho. Polvilho doce, claro. Tapioca de banana. Barras de chocolate. Tãmaras. Potes de meio quilo de cereja. Balinhas de gelatina. Balinhas de alga. Mingau de aveia com damasco. Abacaxi cristalizado. Donuts. Pipoca Caramelada. Cereja coberta de chocolate. Um pote de geléia de morango. Talvez eu tenha comido todas essas coisas essa semana, não confirmo nem nego.

O problema é que, desde a terça feira da semana passada, eu estou proibida pelo cardiologista, de comer quantidades grandes de açúcar de uma vez só. Posso passar anos sem comer um prato de arroz com feijão, mas ficar sem minha dose quase diária de jujuba? Is this real life?

Vai mariana - donuts

Um lanchinho da semana passada para provar o meu ponto.

Fui apelidada de Crackuda do açúcar por uma amiga. Achei condizente, já que existe um estudo que diz que açúcar vicia tanto quanto drogas, o que talvez explique a minha necessidade absurda de comer quantidades enormes de açúcar super rápido e desfrutar da maravilhosa tranquilidade que isso traz para o meu pensamento. Dizem que sugar rush é mentira, mas, olha, que me acalma, acalma.

Estou lidando com essa compulsão da seguinte forma: cortei o açúcar refinado visível. O invisível (tudo tem açúcar, não se iluda), eu vou tentar deixar aos poucos. Tudo que sei que foi açúcar refinado, eu não como. Cortei o açúcar do café, o preparado de tchai, o bolinho, as barras de cereais, o chocolate branco, as balas…

Um dia de cada vez, perdoando as recaídas, claro. Afinal, não sou uma #crackudadoaçúcar à tôa.

(Talvez eu esteja comendo uma tapioca com goiabada nesse momento, não confirmo nem nego).

ps: Estou postando sobre o açúcar, sob a #crackudadoaçúcar, no instagram  e no twitter. Vem comigo 🙂