Arquivo mensal: janeiro 2015

Comparação

Eu acordei animada e preparei um café na cama para o L. Montei uma bandeja linda com bolo de fubá com goiabada, duas tapiocas grandes, uma com queijo outra com patê de frango, café com leite e um pote de salada de frutas coberta de mel.

Coloquei em um cantinho o meu próprio café da manhã, para tomarmos juntos: um copo alto de suco de couve com limão e gengibre e uma tapioquinha mirrada com cottage light. A tristeza do meu café ao lado do colorido do café dele deu até uma dor física do estômago. Poderia ser fome, quem pode garantir?

Depois de resolvermos algumas coisas juntos, metade do dia tinha passado. Um almoço leve, claro. O meu, um subway de 15 cm. O dele, um de 30 cm com adicional de cream cheese. De sobremesa, um picolé, claro, está calor. O meu, um de limão. O dele, morango cremoso com recheio de leite condensado.

Passei o dia aguando e não teve jeito: voltei para casa sozinha e detonei 1/3 de uma caixa de cereal antes de dormir. Mas aí não foi fome. Foi saudade, que eu sei.

L

A Centopeia Triste

Os últimos anos me apresentaram às minhas primeiras rugas, umas espinhas (puberdade aos quase 30, quem nunca) e também à uma triste realidade: salto fino acima de 8cm não é mais para mim, principalmente depois do começo de joanete que apontou no pé em algum momento de 2013, cujo crescimento tenho evitado à base de muita reza.

Eu não tenho carro. Nem pretendo ter. Então todos os meus sapatos deveriam ser confortáveis, mas não. A maior parte dos meus sapatos é formada de altos, pesados e finos saltos, comprados naquele impulso e naquela impressão de que um sapato mais alto te faz melhor de alguma forma, mais sensual, mais bonita, e não é à tôa que a maioria dos sapatos que tenho comprei durante o auge do meu peso.

Passei tempo demais me consolando com belos enfeites para todo o tipo de vazio. Unhas e sobrancelhas sempre feitas, batons e maquiagem impecáveis, belíssimos saltos altos, tudo para tentar me sentir melhor, sem que nada desse o efeito que eu queria: me sentir satisfeita comigo.

Triste demais assumir, principalmente se você estiver se enchendo de sapatos caros, que satisfação nunca vem de nenhum aspecto exterior a você, e que mesmo que eu usasse meus lindos saltos de verniz vermelho pendurados em um colar no meu pescoço, isso não bastaria.

Nem se eu pudesse comer os sapatos. Nem se eu pudesse comer toda a comida dos restaurantes caros que não frequento mais. Nem se eu engolisse todos os esmaltes importados e me embebedasse de perfume.

Cansei de me esconder atrás de pilhas de comida, de sapatos e de produtos de beleza, de achar que essas coisas lindas poderiam criar algum tipo de valor, algum tipo de característica, algum tipo de distinção. Demorou para perceber que nenhum sapato poderia me dar o que eu não conseguia enxergar atrás do meu próprio reflexo no espelho. Quando as pessoas elogiavam algum dos meus enfeites, o elogio era ao objeto, e não à mim. E perceber isso dói.

No último mês eu joguei fora duas sacolas de produtos de beleza, tirei 6kg de roupas para doação e hoje 17 pares de sapato. Um peso a menos que substituí com um par de mocassins de oncinha, de solado de borracha e tecido macio, um batom vermelho de duração 24 horas e um perfume de mel, jasmin e flor de laranjeira.

Tudo doce, tudo lindo, divertido e confortável, assim como espero que as coisas sejam daqui para frente.

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Vem, 2015

Quando deu meia noite e os fogos começaram a explodir do lado de fora da sala de casa, eu abri um berreiro digno de filme mudo, com direito a caretas e choro sem som, sabe como é? Choro de felicidade, choro feio, que ninguém entende, meio rindo e meio chorando?

Como abridora oficial de garrafas de bebida da família, foi chorando mesmo que eu abri o champanhe (abrindo a rolha no dente, uma técnica sem classe alguma, mas efetiva para caramba #dicas), foi chorando que servi bebida nas taças de todo mundo, e foi chorando que beijei o L. E abracei a família, desejando que 2015 seja um ano bem mais doce para nós (e entornei duas taças de champanhe só para garantir a doçura do momento).

2014 foi um ano que começou em janeiro de 2012, quando a minha vida deu o 180º que contei para vocês. Quando os fogos explodiram, foi como se selassem o fim de muita coisa na minha vida: eu esperei até o primeiro segundo de 2015 para que 2012 terminasse, e é uma delícia me despedir dos problemas que carreguei até aqui, sabendo que agora tudo ficou para trás.

2015, por exemplo, começou em 2007: ano que entrei no curso de Direito na PUCSP, e que terminei meu primeiro relacionamento, certa de que (1) a vida é grande demais para viver só para si e o mundo um lugar pequeno demais para que eu não posso gerar algum impacto; e (2) Que se um ~amor~ dá mais trabalho que alegria, tem alguma coisa errada.

Lá se foram sete anos até que eu conseguisse reencontrar o caminho da Mariana de 19 anos (e olha que ela só queria duas coisas!), mas eu consegui. Então foi por isso que chorei: porque a porta pela qual eu sempre quis entrar se abriu com o primeiro minuto de 2015. E esperei muito para atravessá-la.

Então só me resta dizer: Vai, Mariana.

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