Arquivo mensal: agosto 2016

Buddha Bowl (ou a persistência da comida boa)

Entre as coisas que resolvi fazer para transformar meu corpo num templo está comer comidas frescas, cruas e em porções que me deixassem em paz, pelo menos em uma das refeições do dia. Afinal, do que adianta comer bem se comi pouco e fiquei desesperada para continuar comendo mal pousei o garfo?

Tenho uma ansiedade ligada a comida que não passa. Por ser um assunto que me interessa muito – eu gosto de ler, escrever e estudar comida – passo tempo demais pensando nisso. Poder fazer refeições maiores, mesmo que signifique menos caloria por ingrediente, é uma boa saída para acalmar o coração.

Em uma das minhas rondas gastronômicas no Pinterest (já me segue lá?), fui apresentada às Buddha Bowls, ou “tigelonas do equilíbrio”, como decidi começar a chamá-las agora que vou passar a almoçar isso todo os dias. As tigelonas são construídas sempre da mesma forma:

Uma porção de grão (quinoa, feijão, arroz integral…) + Uma porção de proteína (carne, ovo, grão de bico…) + Vegetais (cenoura, beterraba, abóbora, brócolis, se joga) + Toppings (pimentão, cebola, abacate, azeitonas…) + Molho (azeite, iogurte, mostarda…)

Minha primeira tentativa foi uma quinoa com guacamole – Cozinhei a quinoa e misturei com 1/2 avocado, um tomate, meia cebola, uma colher de azeite, suco de um limão e uma pimenta malagueta. Comi com um ovo cozido além do ponto (esqueci cozinhando). Não ficou lindo, mas ficou delicioso. Espero que as próximas tentativas tenham mais legumes. Vou subindo as fotos no meu Instagram, acompanhe lá!

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“O livro dos eventos está sempre aberto no meio”

Ouvi, não sei onde, que “quem não recomeça todo dia não termina nada”.  Sempre acreditei nisso. Mas inventei tantos começos durante a vida que às vezes me sinto parada no tempo, sempre começando. Outras vezes, acho que aproveitei demais de tudo que me foi oferecido. Não guardo mágoas, “afinal cada começo/é só continuação/ e o livro dos eventos/está sempre aberto no meio” (poema lindo da Szymborska, Amor à primeira vista).

Toda essa abertura para dizer que ontem fui ao dentista, na tentativa de resolver meus problemas com DMM, ou “dor do músculo mastigatório”, uma condição chata que me dá enxaquecas constantes. Tive uma longa conversa com o dentista sobre o problema – que é uma combinação de problemas com stress, predisposição genética e outras cositas más – que, durante a anamnese, perguntou sobre o meu peso. É de mastigação que estávamos falando, afinal.

Bom, postei aqui (ao que parece um milhão de anos atrás), que não gosto de falar sobre esse tipo de número. Claro que uma das razões é o fato de que não é um número com o qual estou confortável. Mas a razão maior é que o meu peso não determina nada sobre mim a não ser a correlação do meu corpo com o sistema métrico internacional, apesar de todas as coisas ao contrário que são sugeridas.

Estabelecer um número na balança como uma característica minha parece uma bobagem tão grande quanto dizer que a cor de uma das minhas camisetas pode me definir. As roupas e o peso são mutáveis. Vamos todos engordar, emagrecer, envelhecer, e, a menos que os cientistas corram com seus estudos, vamos todos morrer mesmo. Outras coisas ficarão, nossas impressões no mundo permanecerão aqui e, algo me diz, não terão ter nada a ver com o número gravado na balança no nosso último dia.

É difícil, porém, separar o meu valor quanto pessoa do meu peso. E tão difícil de escrever, verbalizar, tornar isto um fato, mas é essa a verdade: nesse mundo doido em que estamos, em que todo mundo diz o tempo todo que ser magro é bonito, é demonstração de disciplina e característica de pessoas de sucesso, que não tem roupa para todos os tipos de corpos nas lojas e onde postar fotos de si mesma, sendo gorda, é uma transgressão, é claro que meu peso me diz que eu sou menos. Menos que quem é mais magra.

É uma construção cultural? Sim. Eu tenho consciência disso? Também. Ainda me sinto desconfortável? Com certeza. À minha volta foi construído um mundo que me diz que eu sou estranha, que eu não sirvo. E negar isso é um esforço diário, um conflito com as minhas tentativas de chegar a um peso que me agrade.

Isso porque o raciocínio de tudo é manco: se não estou confortável com meu corpo e isso também é um reflexo de uma sociedade que me nega, como eu vou dizer que quero emagrecer sem dizer que estou atendendo também essa ordem social?  Tudo alimenta a insegurança; o quanto é meu e o quanto é do outro? O quanto eu quero e o quanto sou levada a querer?

A verdade é que, listando minhas metas para a mudança de década que se aproxima, escolhi um caminho do meio (terceira via até no emagrecimento): vou me esforçar para chegar a um peso confortável e continuar sendo crítica à realidade que me força a enxergar como uma estranha. Quero ter uma relação diferente com meu peso, algo mais “meu corpo é um templo sagrado e eu devo oferecer o melhor” e menos “eu quero usar o vestido X no dia tal”.

No final das contas, se eu quero viver tempo suficiente para deixar uma impressão no mundo, é melhor que meus joelhos me levem até lá.

 

Ana

Poética, pág. 304, Ana Cristina César